Existencialismo com características brasileiras
Uma reflexão sobre como a liberdade existencialista precisa ser reinterpretada para se encaixar no contexto brasileiro.

Em suas reflexões sobre o Existencialismo, Sartre afirma "que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz" (Sartre, 1978, p. 9). Sendo assim, o filósofo francês acredita "que o destino do homem está em suas próprias mãos" (Sartre, 1978, p. 15).
Mas como depositar a liberdade em mãos que foram fustigadas pelo trabalho escravo? Como agarrar o destino com os dedos que foram esmagados pelas torturas da ditadura? Pensar o Existencialismo de modo empático é olhar para o ser brasileiro, tão diferente dos pensadores europeus. Não há uma liberdade a priori quando refletimos sobre os herdeiros da escravidão. Para Santos, a colonização "se perpetua ainda hoje em nossa condição subalterna em relação aos países do hemisfério norte" (2022, posição 106). Consequentemente, a ideia de liberdade não pode englobar o brasileiro e o europeu da mesma maneira. É preciso adaptar o pensamento existencialista para que o Brasil seja realmente compreendido em seu contexto histórico único.
A literatura brasileira promove reflexões importantes sobre o povo marginalizado, podendo complementar as principais ideias da Psicologia Fenomenológica e Existencial. O livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, narra a história de diversas personagens que viviam oprimidas pela organização social do país:
Desde os dez mil escravos que o coronel […] usou para encontrar diamante e guerrear com seus inimigos. Quando deram liberdade aos negros, nosso abandono continuou. O povo vagou de terra em terra pedindo abrigo, passando fome, se sujeitando a trabalhar por nada. Se sujeitando a trabalhar por morada. A mesma escravidão de antes fantasiada de liberdade. Mas que liberdade? Não podíamos construir casa de alvenaria, não podíamos botar a roça que queríamos. Levavam o que podiam do nosso trabalho. Trabalhávamos de domingo a domingo sem receber um centavo. O tempo que sobrava era para cuidar de nossas roças, porque senão não comíamos. Era homem na roça do senhor e mulher e filhos na roça de casa, nos quintais, para não morrerem de fome (Vieira Junior, 2019, p. 220).
O trecho supracitado mostra como a liberdade continuou restrita mesmo após o fim da escravidão. As personagens foram tomadas pelo determinismo de um mundo que ainda reproduzia a opressão da colonização. Trabalhavam sem receber um salário, não podiam plantar aquilo que desejavam e viviam uma escravidão fantasiada de liberdade.
De certa forma, a configuração colonial também existe nos dias atuais, pois "[s]omos dependentes economicamente, nossas culturas e modos de ser-no-mundo são inferiorizados, os saberes ancestrais dos povos ameríndios e africanos são desconsiderados em relação aos modos de Ser, Saber e Poder advindos da Europa" (Santos, 2022, posição 106). Portanto, muitos brasileiros vivem como as personagens do romance Torto Arado, oprimidos e marginalizados, excluídos pelos senhores que possuem o poder econômico, intelectual e social.
É impossível refletir sobre a existência no Brasil sem considerar os acontecimentos históricos que afetaram o ser-no-mundo, condenado a experienciar um confronto com o que já foi:
Histórico é o modo como me comporto com aquilo que vem ao meu encontro, com o que está presente e com o que já foi. Todo poder-ser para com algo é um determinado confronto com o que foi, com vista a algo que vem ao meu encontro [...]. Pelo modo como eu correspondo ao que vem ao meu encontro, eu vejo o presente e o passado (Heidegger, 2017, p. 169).
Portanto, o passado (a colonização, a escravidão, o período de ditadura) vem ao encontro do brasileiro. O ser humano é aprisionado pela condição subalterna presente na tessitura da sociedade e estabelecida há muito tempo.
Nota-se que as reflexões articuladas ao longo do presente texto mostram que a liberdade não é garantida a todos os seres humanos da mesma forma. Em suma, surge a necessidade de "uma mudança importante na psicologia como um todo, [...] podemos encontrar um arcabouço teórico mais condizente com as questões e problemas vivenciados em nosso continente" (Santos, 2022, posição 107).
Não obstante, essa modificação deve ocorrer na prática para não ficar presa aos conceitos teóricos e ao "mundo das ideias". O pensamento inclusivo e o questionamento da noção de liberdade devem ser levados à clínica, ao hospital, às instituições, ao espaço acadêmico etc.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
HEIDEGGER, Martin. Seminários de Zollikon: protocolos, diálogos, cartas. São Paulo: Escuta, 2017.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1978.
SANTOS, Gustavo Alvarenga Oliveira. Pensamento decolonial e psicologia existencial. In: MELO, Fabíola Freire Saraiva de; SANTOS, Gustavo Alvarenga Oliveira. Psicologia fenomenológica e existencial: fundamentos filosóficos e campos de atuação. Santana de Parnaíba [SP] : Manole, 2022.
VIEIRA JUNIOR, Itamar. Torto Arado. São Paulo: Todavia, 2019.